Augustana

 

        Os olhos se abriram e dividiram a penumbra daquele cômodo. ‘’Augustana… seria esse meu nome? Acho que sim’’. Ela continuou na mesma posição e apenas seu peito se movimentava com as ondas da respiração. O clima daquele local era agradável, um pouco gasto e abafado, mas até que não eram ruim. Sua pele acomodava o frio lençol que a envolvia e sua nudez agradecia tal sensação. Ela sentiu uma brisa leve passar e suspirou mais fundo, apreciando a vida – ao menos, era o que pensava.

        Passou a mão, leve e clara, com as unhas sem fazer, por seus cabelos e acariciou seu rosto. ‘’Preciso comer’’; foi até a velha geladeira vermelha e pegou uma garrafa de suco de laranja. Havia sobre a mesa alguns salgados que sobraram da festinha de ontem – como foi bom rever os amigos! Sentou-se no sofá e aproveitou o lanche. Leu algumas notícias no jornal e estranhou a data da publicação…porém, percebeu que ainda era o mesmo mundo, apenas um pouco mais caótico.

        Escutou, ao longe, bem baixinho, uma canção que marcara sua infância. ‘’Estranho, não me lembro de ter ligado o rádio’’. Seus pulsos e tornozelos ardiam e a pele estava esbranquiçada – uma sensação parecida com àquela de quando calçamos meias apertadas.

       Começou a ficar enjoada.

       ‘’Essa comida não me fez bem! Devo ter exagerado na bebida ontem à noite’’. Enquanto pensava, sua cabeça começou a doer. Tudo parecia um pouco embaçado e fora do lugar; a penumbra havia diminuído e já estava bem claro, quase branco. O ardor nos braços e tornozelos piorou. Estava prestes a vomitar. As lembranças dos amigos ficaram confusas – ela estava confusa.

        A ‘’música’’, agora, soava estranha e aguda, atingindo ao fundo sua mente fraca. E aquele trauma assustador se fortificava à medida que esse lamento se tornava mais intenso. Seu mal estar era um estado com o qual convivia há tempos, apesar de nunca ter se acostumado.

       De repente, tudo ficou claro! Um forte sentimento de lucidez se apoderou de sua mente. Aquele quarto vinha sendo lar há seis anos! Aqueles homens que acabavam de abrir a porta eram os responsáveis por suas amarras, assim como aquela senhora de branco era quem lhe oferecia os prazerosos doces e salgados fabricados e fornecidos pela clínica Augustana.

  • por ShoesOff

7 thoughts on “Augustana

  1. Caraaa, que incrivel! O final é ótimo ótimo. No começo lendo eu ficava pensado “hum, isso é bom né, essa tranquilidade onde não se espera nada, apenas anda, vive, e é feliz por isso”. Mas então no final, a mulher estava internada, surpreendente.

    ps. Ia falar do omelete, mas esqueci como é mesmo, omelete com ervas e cogumelos? ahsuhaush, esqueci.

    beijos, moço do omelete sofisticado.

  2. Olá adorei seu comentário, fico feliz que tenho gostado. Ainda hoje vou atualizar o blog ^^
    Adorei seu texto, imaginei varias coisas no percurso da história mas não pude adivinhar o final. Você está de parabéns!
    Bjuuz

    ps: Se gostou do que escrevo e pretende me acompanhar como falou, ficarei feliz se seguir meu blog.

  3. cara que texto foda.Manteve a suspense até o último instante,mto bem escrito.
    gostei muito do seu blog
    vou seguir!

    abs

  4. Oi, Luiz
    gostei da construção do texto… a confusão mental da ‘moça’ fica bem nítida para o leitor e o que se encaminha para um ‘porre’ é sabiamente transformado do ‘loucura’.

    Parabéns e abraço!

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