A beleza do fim

Não, eu não senti o vento. Não percebi a porta batendo. Não senti as nuvens despencarem sobre as avenidas. Não notei a noite se atrasar por apenas alguns minutos. Não tomei daquela água, do mar, de corpos que dançavam à deriva de olhares. Não perdi o desejo de acender a chama do farol que guiava transatlânticos aos rochedos. Não deixei de me excitar por observar os destroços. Não esqueci a fragilidade de nossas mãos dadas. Não temi em vão por um futuro descompassado. Não sonhei o quanto devia por um belo e cerejal amor. Não visualizei o suficiente os belos campos pelos quais você corria, leve e a passos largos, banhando-se com uma brisa de frutas vermelhas que, por mais forte que eu gritasse, o mais rápido que corresse, não seria o bastante para impedir que a porta se fechasse, que as nuvens caíssem, que as avenidas trincassem, que o tempo perdesse sua falsa noção e, por apenas um mínimo minuto noturno, o mundo se alterasse, mesmo que esse fosse meu mundo, que fosse meu corpo a receber a água salgada, que me secava por dentro, que eu mesmo não tivesse rumos e fingisse me guiar rumo à felicidade, rumo a você, em seu vestido xadrez, dançando em seu belo campo de trigo, ao lado de minha plantação de cerejeiras, quando, na verdade, me arremessava em direção à pedras e rochedos pontiagudos, que me fariam em retalhos e desmembrariam toda minha carne, sobrando apenas um fraco espírito. Será que, ainda assim, gostaria de sentir, perceber, notar, tomar, perder, excitar, esquecer, desejar e amar? Ser um agente passivo em sua própria vida? Um observador, um mero ‘’terceira’’ pessoa do singular que olha o próprio corpo correr em direção ao vendaval e admira tal fato? Não, eu não faço tal opção. Não, eu não sou tão fudido assim. Não, eu sou apenas uma alma desgarrada que reflete sobre o amor e o pesar, a coragem e o medo. Sou apenas mais um que quer admirar a beleza do fim.

  • por Luiz Eduardo

5 thoughts on “A beleza do fim

  1. Forte o texto, arrebatador ao seu modo. Uma vez eu tive um sonho assim, não as cenas, os fatos, mas o sentimentos poderia ser escrito assim, decifrado palavra por palavra como cada linha do texto. Sempre pensei em escrever sobre ele, mas acabei deixando pra lá.
    E nas últimas linhas, lendo uma, duas, três vezes me perco na minha própria confusão diária de não saber de que lado eu estou, se sou forte ou sou fraca em algumas situações.
    Mas bem, gostei.
    beijos.

  2. “belo e cerejal amor…” Que doce, que sincero!
    O texto todo é tão denso, intenso, honesto… Me tocou, de verdade.
    É no mínimo bom para nossa saúde emocional saber apreciar a beleza do fim… Serviu de lembrete para mim, que bom! Porque, na verdade, aquele final preto e branco, aquela imagem se apagando devagar é mais do que bela. E inevitável!

    Um beijo!

  3. Gostei do seu blog. Já entrei aqui algumas vezes.
    Gosto muito de ler poesias, porque tomam menos tempo. Mas as crônicas são muito boas tb. Gosto de ler com calma e comentar com tempo.
    E é chato pq tenho tempo, mas não tenho… é difícil explicar.

    Mas lerei mais,

    Abração!

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