Avenida Central

Carlos a conhecera em meio a uma penumbrosa tarde de Abril. Ela parecia não parar de chorar, por minutos que pareciam horas, ele observava. Era uma mulher comum, vestindo sobretudo preto e óculoS escuros – apesar da ausência do sol. Ela estava em prantos, a pele do rosto, antes, tão clara, estava avermelhada; lágrimas escorriam por suas lindas bochechas; o cabelo estava bagunçado e com alguns fios colados na testa, por causa do suor.

Cautelosamente, ele observava o piso – visualizava as intermináveis poças d’água que se formavam ao redor dos pés daquela mulher, ”Vai se afogar, com certeza” – pensava. Fitava suas expressões, o corpo parecia desatado de sua alma, parecia uma fina casca, prestes a se romper e libertar um monstro. Os soluços e gemidos ressoavam alto por toda cidade, muitos não conseguiram dormir por dias e crianças não podiam ouvir falar da mulher que chorava na velha ponte do arco. Ela não se alimentava, não bebia, não tinha outras necessidades além de chorar e respirar, quando não aguentava. Carlos continuava ali, não sabia se estava sentado, em pé, ou em sua casa, não contava as horas, os dias, não sentia frio ou fome, não enxergava ou escutava – seu corpo funcionava em prol daquela criatura, bela e desamparada.

Todos a observavam, com expressões assustadas e desesperadoras; seu poço era profundo e as lágrimas já alcançaram sua cintura. Carlos se sentia como parte daquele triste cenário, mas algo o incomodava – aquela mulher sofrida, fraca e desamparada, era-lhe muito familiar. Além do estranhamento, pela situação, sentia muita pena, compaixão e, até mesmo, carinho, por aquela chorosa alma. Algo, porém, impedia que os dois se comunicassem. Ele não conseguia adentrar àquele círculo de lágrimas e desespero; quando gritava, por mais alto que fosse, ela parecia não lhe escutar, pois seus próprios berros e gemidos superavam o intento daquele homem. Por que ela estava ali? Por que chorava sem parar? Por que tanto sofrimento? De onde tirava tantas lágrimas? O que de tão ruim acontecera? Quem era ela? E mais, por que ELE ficava ali, dia após dia e noites em claro? Algo estava errado. Ele estava errado. Estaria amaldiçoado e, por isso, não conseguia se mover? Não – pensava – pois era capaz de caminhar para um lado e outro, porém, não conseguia… ou melhor, não QUERIA se afastar daquela mulher. O que está acontecendo? – começou a se perguntar.

Uma brisa o acariciou e, de repente, o silêncio – em sua forma mais emabaraçosa possível – reinou.

E, por vezes, assusta-nos a idéia de, simplesmente, consentir, conviver, aceitar ”sim, é isso”, ”tanto faz”, posso viver com isso”. Assusta se entregar quando devemos tomar tal atitude e, é sedutoramente cômoda, a revolta, indignação, abram alas, corra para as colinas, quando, a situação presente merece, apenas, um belo e básico, confortador, adorado e pronto, ok, agora vou relaxar, que bom que está bem.
Carlos? Bem, acho que ficou por ali, olhando, assoprando, sofrendo, com corisa, pêlos nas orelhas e gastrite, alguns sorrisos de canto de boca e suspiros apaixonados, mas nunca, nunca deixou de se indagar sobre aquela coisa, aquela idéia, aquela vaga memória que flutuava em sua mente por vezes, horas seguidas, mas que, hoje, ele já não tinha certeza. Estava ali, naquele lugar, com muitos ao seu redor, mas não se movia, os pés não saiam do chão, era maior do que ele a força estagnante; crianças, homens e mulheres, casais apaixonados e cães choravam, se assutavam e compadeciam-se com aquelas forma, cravada e enrustida nas pedras daquela, hoje, avenida central da cidade, mas, nada disso importava; em algum lugar de seu ser aquela velha fotografia se convertia em uma bela mulher e, isso, bastava.

  • por Luiz Eduardo

6 thoughts on “Avenida Central

  1. “Cuidado, tem gente que se afoga nas próprias lágrimas, meu filho.”
    Até a metade do texto essa frase que li num livro (Sabedoria de Preto Velho) não me saia da cabeça.

    Será que eu se ele conseguisse ir até lá mudaria a vida daquela mulher? Será que não mudaria a vida dele também?
    As vezes a gente tem medo de chegar, de talvez ‘invadir’ o espaço do outro mas eu me vi nessa mulher quando você descreveu o choro dela. Certa vez expus minha dor assim também e como essa mulher, ninguém ousou chegar perto.

    Querido viajante, é sempre um prazer ler-te um pouco mais. É como numa viagem a um lugar desconhecido, você senta na janela pra admirar tudo até chegar ao destino.. Eu sou uma viajante que não conhece pra onde vai, não sei pra onde você me leva em cada texto mas eu adoro a sensação de estar descobrindo em cada ponto que eu passo, a cada palavra que me faz descobrir um pouquinho mais das suas intenções e até chegar ao fim, ao destino que eu fiquei pensando e montando na minha cabeça, mas nunca acerto.. Seus destinos são inesperados e maravilhosos.

    Viaja mais vezes e me faz viajar também, eu adoro as suas viagens!
    Um beijo, da sempre Frenética, Bianca!

  2. Acho que as pessoas no geral deveriam ser mais espontâneas, querer fazer o que realmente querem e não seguirem passos todos analisados. Claro que em algumas situações é preciso pensar, analisar e não agir por impulso.
    Alguns pequeninos eventos que surgem inesperadamente em nossa vida deveria ser aproveitado, e não deixar passar por preguiça ou medo. Talvez nesse pequeno evento esteja a bifurcação do nosso caminho aonde leva realmente à experiência, a experimentação máxima do quem há para ser vivido. Quanto a Carlos, acho que devia deixar um bocó. AHAHAH, Carlos é tão todo mundo, o medo de todo mundo, o medo e a vontade, a pessoa que fica na vontade mas não deixa de sentir sabor em pensar. Eu sou um pouco Carlos.

  3. A saudade do abismo insuportável de se sentir viva. A certeza de que uma hora se volta pro amor ruim, sabendo, de algum lugar que não se pode jamais interferir, que ruim não é exatamente a palavra. A palavra que não se sabe e daí chamamos de ruim.

  4. Passei aqui pra deixar meu abraco, ja que sempre estou ausente e me deparei com seu texto,lindo.
    Voce esta se superando no descritivo e emotivo, em?! Mas os dois carros estao andando juntos.bonito de se ver.

    AMEI!

    Fui la e voltei!

    Beijo

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